A vulnerabilidade como commodity em um mercado de flocos de neve

Surge uma nova geração que quer ganhar o mundo, enquanto fica na cama lambendo suas feridas


Assistindo pela milésima vez ao clássico “Clube da Luta”, me peguei pensando sobre o icônico monólogo da obra “Vocês não são especiais. Vocês não são um belo um belo ou único floco de neve. Vocês são feitos da mesma matéria orgânica em decomposição como tudo no mundo”, dito pelo personagem de Brad Pitt. Embora o monólogo diga o óbvio que as pessoas não são especiais, tudo ao redor faz com que elas acreditem no contrário.

Quando uma criança se vê no completo ócio em uma tarde de quarta feira e faz um risco em um papel com qualquer lápis de cor que a sua mão aleatoriamente escolheu, para seus pais ela já é o novo Picasso. O novo arranjo familiar talvez contribua para que essas crianças sejam iludidas, com pais tendo apenas um filho e podendo dar toda a atenção a ele. No passado, a demografia da família fazia com que pais e mães dividissem a atenção com os numerosos filhos.

Toda essa atenção dada aos filhos únicos parece estar formando um exército de adultos tão sensíveis quanto um labrador enrolado em um plástico bolha deitado em um colchonete. Coincidentemente, todos hoje dizem possuir TDAH e ansiedade e precisam ser alertados a todo o momento sobre os “alertas de gatilho” em filmes e séries para poderem se preparar para consumir o conteúdo ou então desistir de fazê-lo, a fim de não se magoarem.

Além de toda a sensibilidade que parece transbordar na vida dessas pessoas, ela acaba também se transformando em um produto de mercado, onde a vulnerabilidade passa a ser recompensada. Nas redes sociais, é mais do que comum os jovens expondo suas fraquezas para milhares de seguidores e recebendo mensagens de suporte deles, e às vezes até elogios, como se fossem heróis por estarem falando sobre suas angústias.

Um bom case de estudo aconteceu esse ano, quando Simone Biles, atleta da ginástica artística, decidiu desistir de algumas provas das Olimpíadas de Tóquio para, nas palavras dela, “preservar a saúde mental”. Não existe nenhum problema em desistir de uma prova e inclusive homens fazem isso a todo o momento no futebol, quando pedem para serem substituídos numa partida. A diferença é que agora existe uma inversão, onde a força e coragem são derrubados, e Simone foi tida como uma espécie de heroína, por “falar sobre seus sentimentos”. A questão mercadológica é que não seria absurdo dizer que Simone Biles foi tão elogiada desistindo das provas quanto ela foi elogiada na olimpíada passada, quando conquistou várias medalhas de ouro.

Passa a existir então um culto às fraquezas, que devem ser respeitadas e acolhidas e, diante disso, se transformam em escudos.

“Uma nota na prova não te resume”, “o seu gestor é tóxico”, “o que você consegue é sempre o seu melhor”, são como mãos de mães que acarinham seus filhos, que só pagarão as próprias contas depois dos 30.

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