Michel Houellebecq esquarteja a contracultura em “Partículas Elementares”

Livro do escritor francês é uma dura crítica à revolução sexual, e coloca o sexo como sendo o último mito do Ocidente


Livro do escritor francês é uma dura crítica à revolução sexual, e coloca o sexo como sendo o último mito do Ocidente

Michel Houellebecq é um autor que ganha todas as atenções quando decide falar. Em sua obra mais famosa, “Submissão”, ele faz uma previsão de que com a ajuda do partido de esquerda os muçulmanos chegarão ao poder na França com as eleições de 2022. O mais macabro é que o livro foi lançado em janeiro de 2015, no mesmo dia do atentado ao jornal Charlie Hebdo. O periódico francês, inclusive, estampava Houellebecq na capa, e dedicava várias páginas ao novo livro do autor.

As duras críticas à sociedade contemporânea se apresentam como características marcantes nas obras do autor, incluindo “Partículas Elementares”, onde Houellebecq volta a descarregar a metralhadora em um povo que, após a morte de Deus, mergulha no hedonismo e encara a busca pelo prazer como o único propósito na vida.

Na história conhecemos Bruno Klement e Michel Djerzinski, meio irmãos por parte de uma mãe que, com o surgimento do movimento da contracultura, incorpora a filosofia da nova era e decide abandonar os filhos com seus respectivos pais para viver a revolução sexual que encantava o Ocidente naquela época. Os dois protagonistas também são abandonados pelos pais, que os entregam cada um para sua avô paterna, ainda bebês, e só se conhecem pessoalmente por volta da adolescência.

A ausência do afeto, companheirismo e autoridade dos pais marca a vida de Bruno e Michel e define suas personalidades, o que foi trabalhado de forma minuciosa por Houellebecq. Bruno é um servidor público que se torna um maníaco por sexo, que a todo o momento arquiteta planos de como conseguir uma transa, e viaja para destinos em busca desse objetivo, como saunas, casas de swing, praias de nudismo e sexo explícito e acampamentos hippie que colocavam o sexo como algo transcendental. Do outro lado, Michel é um niilista incorrigível. Possuindo uma posição de pesquisador, o personagem adquire notório reconhecimento em sua área de pesquisa, mas simplesmente não consegue sentir nada – não consegue sentir sequer a tristeza por existir.

Ao longo das páginas, escritas de forma hiper-realistas e muitas vezes causando nojo e repulsa, Houellebecq desnuda toda a revolução sexual, que em seu surgimento foi vendida como uma “uma forma de sonho comunitário”, algo superior e evolutivo, quando na verdade se tratava apenas de um movimento individualista, de pessoas buscando a sua própria satisfação. Todos os mitos foram sendo derrubados com o passar dos anos no Ocidente, mas o sexo aqui aparece como o último deles que ainda está vivo, onde muitos charlatões o vende como uma forma de transcender, mascarando aquilo que ele é de fato: gozar e ir embora – muitas vezes insatisfeito.

Esse mesmo movimento que prega uma certa liberação dos corpos acaba sendo um aprisionamento e uma competição do coito. Bruno a todo o momento busca o sexo mas vê seus aspectos físicos não tão interessantes para atrair as mulheres, principalmente o seu pau pequeno, muito menor do que dos outros homens frequentadores do acampamento hippie, que o protagonista está participando. Existe um culto da performance, onde o padrão é estar sempre com o pau duro, mesmo após várias ejaculações, penetrando todos os orifícios possíveis com muita competência, elasticidade e potência.

O hedonismo é apresentado pelo autor como uma busca que não se tem fim. De forma desagradável, Houellebecq traça os desejos dos hedonistas, passando pelo sexo a dois, sexo a três, troca de casais, sexo grupal, até chegar em pontos mais críticos, quando o sexo já não preenche toda a vontade de prazer e os indivíduos partem para atitudes cruéis, até mesmo sendo capazes de matar.

“Particular Elementares” é mais uma grande obra de Michel Houellebecq, que mesmo aparentemente exagerando, sempre acaba falando verdades que algumas pessoas pensam, mas não dizem. Essa é uma história típica de um autor que cria um mundo particular onde nunca existe carnaval.

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