“Stranger by the Lake” acompanha o surgimento de uma nova ética na pós-modernidade

Longa de Alain Guiralde aborda com competência a solidão, os relacionamentos descartáveis e a compulsão pelo orgasmo dos homens gays


Longa de Alain Guiralde aborda com competência a solidão, os relacionamentos descartáveis e a compulsão pelo orgasmo dos homens gays

Cruising é o nome dado a espaços públicos onde homens se dirigem para a obtenção de sexo consensual, gratuito e anônimo. Esse é o cenário de “Stranger by the Lake”, filme francês que retrata na obra um assassinato em um local onde homens que não se conhecem vão para conseguir satisfação sexual imediata.

Durante o verão, Franck passa a ser frequentador assíduo de um lago escondido que serve como local de cruising. Lá, ele faz amizade com Henri, e também se apaixona por Michel, que infelizmente está sempre acompanhado do seu namorado Eric. Em uma de suas visitas ao lago, após transar com um dos frequentadores no bosque, Franck presencia, escondido, Michel afogando Eric no lago, e indo embora depois do homicídio.

Surpreendentemente, Franck não intervém na efetivação do homicídio que ele estava presenciando e, não somente isso, nos dias seguintes no lago em que Michel aparece sozinho o protagonista ignora o perigo e passa a se relacionar com ele, se aprofundando em sua paixão.

Dias após o homicídio, o corpo de Eric é encontrado boiando no lago. Na manhã seguinte à retirada do cadáver, o expediente do lago segue como nada se nada tivesse acontecido, com homens se bronzeando nus na areia e entrando na mata para transar com desconhecidos.

Nesse ponto, parece muito que foi criada no lago uma realidade em paralelo à vida real, ao ponto dos frequentadores não perceberem a gravidade do crime ocorrido. O estado de alienação é de certa forma interrompido pelo policial que chega no local para investigar o crime. Em uma intervenção, ele pergunta a Franck se ele não acha estranho que todos estejam agindo normalmente mesmo após ser encontrado um cadáver no lago, ao passo que o protagonista diz que “não podemos parar de viver”. O investigador levanta o fato de não se tratar de Franck ter compaixão por Eric, e sim do protagonista ter um cuidado consigo mesmo.

O pseudorelacionamento de Franck e Michel nasce e se mantém restrito ao lago. Ambos não se conhecem, não sabem onde moram, nem possuem o número de telefone um do outro. É uma relação que só existe no cruising, e que Franck gostaria de levar para além daquele lugar. Chama a atenção a paixão de Franck por Michel se estabelecer apenas no campo da estética, ao ponto dele passar por cima de tudo só para poder chamar aquele corpo masculino de seu.

É plausível a interpretação daqueles que leem o risco assumido por Franck como uma tentativa de conseguir um pouco de amor e afeto, após anos de privações, muito comum na vida dos homens homossexuais. Quem fizer esse tipo de análise estará agindo por indução, pois no filme não somos apresentados ao passado de Franck. Mesmo que a infância e adolescência de Franck tenham sido de privações, também cabe investigar até que ponto faz sentido fazer concessões sobre os atos realizados hoje, justificando-os utilizando fatos acontecidos há tanto tempo, ao invés de assumir a sua própria vida e tentar superá-la, mudando a forma de se relacionar com o meio e consigo mesmo.

Embora esteja apaixonado por Michel, quando Franck está sem o seu parceiro ele permite ser chupado por outro frequentador do lago, uma espécie de veyour, pelo qual Franck sempre sentiu desprezo. O ato sexual foi consolidado mesmo o protagonista não desejando o outro homem. Foi realizado apenas porque ele poderia ser.

Franck então tem relações sexuais durante o filme com um desconhecido que ele não sabe sequer o nome; com Michel, um assassino em que ele próprio presenciou o crime; e com um frequentador que ele nunca desejou. O protagonista se relaciona com todos esses homens pelos quais ele não possui nenhuma ligação por parte do discurso, mas nem pensa na possibilidade de ficar com Henri, com o qual têm as conversas mais interessantes do filme.

A obra caminha para um final tenso, e que pode ser considerado insatisfatório. No entanto, ao chegar no final o filme já cumpriu com muita competência o seu papel, abordando temas como solidão, relacionamentos descartáveis e compulsão pelo orgasmo, se tornando algo muito além de apenas um soft porn.

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