“Pequena Coleção de Frases em Tempos de Fundos Pensamentos” dá a impressão de que poderia ser mais interessante do que realmente é

Aleatoriedade do espetáculo do Grupo Teatral Encena mostra que o público expectador parece ter sido ignorado no momento de criação da obra


Como é difícil dizer que não gostei de “Pequena Coleção de Frases em Tempos de Fundos Pensamentos”. Primeiro porque o teatro por si só já nos causa empatia, os atores fazem com que nós desejamos ser amigos deles, e por fim eu fui prestigiar a peça em um dia que tinha sido muito bom.

Assisti ao espetáculo em um sábado à noite, após passar uma tarde maravilhosa sozinho no Cine Belas Artes. O título da peça, o seu contexto e até a imagem de divulgação com uma mulher tendo um besouro em sua boca fizeram com que eu criasse expectativas que infelizmente não foram atingidas.

O espetáculo apresenta os encontros recorrentes de quatro amigos que lidam com o luto da morte de uma amiga em comum na pandemia de COVID-19. Esses encontros são uma espécie de terapia coletiva e que, em teoria, deveria trazer reflexões sobre a vida e a morte, uma vez que a peça foi escrita nos primeiros meses de quarentena.

É difícil até descrever a relação dos amigos que se materializa de forma tão heterogênea. Um membro do grupo é um médico que se separou da esposa; o outro é um rapaz que detêm um emprego no mundo corporativo e não toma banho; uma das mulheres é uma jovem desempregada com problemas familiares e obcecada pela sua planta; por fim, uma mulher que fica desesperada por não conseguir responder à dúvida do seu filho sobre qual o sentido da vida.

A aleatoriedade, para não dizer “bagunça”, das falas entre as personagens deixa o público sem reação, simplesmente porque não dá para entender. É um jogo de falas soltas que se repetem e não causam nada. Além de não conseguir emocionar e causar catarse, a peça também flerta com um certo humor, mas falha em não conseguir fazer rir, com referências chatas ou datadas, assim como o próprio contexto da pandemia.

Mesmo que a peça tenha algo por trás, um sentido que não é explícito, isso é ignorar completamente a plateia que, em sua maioria, não é especialista em teatro, e está lá porque gosta, porque queria fazer um programa cultural. Esse público deve ser levado em conta na criação de uma obra.

Não foi dessa vez que gostei de um trabalho do Grupo Teatral Encena, mas estou decididamente aberto a tentar outra vez, e quantas vezes forem.

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