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“Corpo Desfeito” mostra um ciclo de abusos interminável

Livro da escritora Jarid Arraes prende o leitor e só o larga em sua sentença final


No interior do Ceará, uma família vive um sequência de violências entre seus membros. O avô Jorge, por desconfiar que Marlene o traiu com o vizinho, não aceita sua filha Fabiana e maltrata sua esposa sempre que possível. Por Fabiana ter engravidado de algum homem desconhecido, Marlene parece guardar rancor da neta Amanda, a protagonista de “Corpo Desfeito”. Com a morte de Jorge e Fabiana, Marlene passará a punir Amanda, como se ela fosse a culpada.

A própria Amanda carrega a culpa por ter sido concebida por Fabiana em uma idade precoce, interrompendo sua vida, e fazendo com que a mãe tenha tido que abandonar seus estudos e ir trabalhar para sustentá-la. Com uma jornada árdua, Fabiana passa a fazer serviços de costura, trabalhar em uma loja de roupas, às vezes também como cuidadora de idosos, tudo para sustentar a casa. Indo atrás dos preparativos para a festa de doze anos da filha, Fabiana é atropelada e morre. Para Amanda, seria a segunda vez que sua mãe perde a vida em seu aniversário.

A partir daí, a trama vai por um rumo inesperado – e, por isso, muito interessante. Marlene, relembrando a história de vida de sua filha e a forma trágica da sua morte, canoniza Fabiana e inclusive manda fabricar uma santa que possui o seu rosto. A estátua é colocada em um quarto nos fundos da casa como se fosse um altar.

Marlene entra em uma jornada psicótica onde acredita que a filha Fabiana está conversando com ela e pedindo várias promessas, visando uma purificação dos que ainda continuam vivos. Diante disso, Marlene então se impõe e impõe à neta Amanda uma vida cheia de privações. Confisca as roupas, sapatos, brinquedos, até o desodorante e os absorventes de Amanda. Marlene manda retirar a porta do banheiro para se certificar de que a neta não “toque de forma imprópria” seu corpo durante o banho, e decide até desligar a energia elétrica da casa, e as duas passam a ter que ascender velas à noite para andar pela casa.

Amanda passa a usar apenas vestidos azuis claros sem cintura e com o comprimento abaixo dos joelhos, e currulepes nos pés. A menina passa o dia tento que limpar a casa e rezar para a estátua de sua mãe, só saindo à rua para estudar. Mais tarde, Marlene também decide retirar a neta da escola.

Nessa sequência de agressões, Amanda encontra em sua única amiga Jéssica o seu escapismo. Jéssica conversa, ouve, acolhe Amanda e entende todas as suas dores. Essa amizade posteriormente se transforma em um lindo romance recíproco entre as duas.

A escalada da violência é gradual até chegar em um final insuportável e que poderia ter sido trabalhado mais pela autora Jarid Arraes. No entanto, “Corpo Desfeito” é uma história que prende o leitor, mostra como a violência é herdada e como, ainda hoje, é comum negar a vida buscando uma outra que está em um plano superior, que ninguém sabe a localização.

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