“Gretchen Filme Estrada” é muito mais do que uma linha de produção de memes

Eliane Brum e Paschoal Samora unem forças na direção do documentário que acompanha a campanha eleitoral de Gretchen pela prefeitura de Ilha de Itamaracá


Eliane Brum e Paschoal Samora unem forças na direção do documentário que acompanha a campanha eleitoral de Gretchen pela prefeitura de Ilha de Itamaracá, em Pernambuco

Sempre fui curioso para saber a origem dos lotes de vídeos, gifs e fotos de Gretchen que servem de matéria prima para a produção a nível industrial de memes na Internet. Essa curiosidade me levou a assistir a “Gretchen Filme Estrada”, documentário que registra a campanha da cantora-dançarina pela prefeitura de Ilha de Itamaracá. Uma pessoa que vai assistir ao documentário para rir, de fato consegue atingir o objetivo, mas a obra consegue entregar muito mais do que isso – o que, para mim, confesso, foi uma grande surpresa.

Cansada de cantar todos os dias suas únicas três músicas de sucesso nas últimas três décadas, Gretchen decide encerrar a carreira artística e começar uma nova etapa da sua vida entrando na política. Diferente do que possa se esperar, o documentário não explora o perfil caricatural da cantora, e sim acompanha de fato o trabalho árduo e diário de uma candidata em busca de votos.

Gretchen aparece em todas as cenas com uma postura que de fato está levando a jornada da campanha a sério. Ela cria um plano de governo e o registra em cartório, planeja seus discursos com conselheiros, motiva seus militantes que trabalham de forma voluntária e vai até lugares negligenciados conversar com os mais pobres. Tudo isso de forma honesta, sem comprar votos e sem prometer aquilo que não pode cumprir.

Enquanto está em campanha para ser prefeita da Ilha, Gretchen ainda mantém os shows que faz em circos, cujos ingressos são vendidos a dois reais cada, para conseguir pagar suas contas do mês. Ela e o marido revezam a direção do carro em viagens longas nos finais de semana para conseguirem chegar nas cidades mais remotas do nordeste, para a cantora-dançarina se apresentar.

Mesmo com a rotina exaustiva, a protagonista cria uma espécie de resiliência gretcheniana, de alguém que é tão seguro de si que consegue atravessar barreiras de forma incólume, se sentindo confortável não importa qual a adversidade.

Apesar de, claro, Gretchen ser a estrela do documentário, a obra também dá espaço para os diversos personagens que habitam a Ilha. Escancara a pobreza, a falta de expectativa, a compra de votos, a influência da igreja na política, o poder do transcendental sobre os moradores, o desprezo pela educação formal.

O resultados das eleições, com Gretchen recebendo apenas 2% dos votos e amargando o terceiro lugar na disputa, assume papel secundário em um documentário tão rico que deveria ser tão disseminado quanto os memes de sua protagonista. Apesar de doída, a derrota nas urnas encerra a jornada com uma Gretchen trágica muito passível de atrair empatia, pois ao longo do documentário o carisma da protagonista faz com que o espectador passe a torcer por ela.

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