“Laços” se transformam em nós no vulcânico romance familiar de Domenico Starnone

Obra do escritor italiano mostra as consequências de um período de abandono que um homem impõe à sua família


Vanda e Aldo estão casados há mais de cinco décadas. Ao voltarem de uma agradável semana de férias na praia, eles encontram seu apartamento completamente revirado. Reorganizando seus papeis, Aldo se vê forçado a encarar lembranças de décadas atrás: os anos que abandonara Vanda e os filhos para viver com uma mulher mais jovem.

A obra é dividida em três livros. O primeiro deles é composto pelas cartas penosas escritas por Vanda para Aldo, entre 1974 e 1978. A mulher abandonada tenta entender os motivos que levaram o seu marido a sair de casa e ir morar com outra. Com uma escrita dolorida, Vanda pede incontáveis vezes para Aldo reconsiderar sua decisão, lembra que os filhos Sandro e Anna precisam do pai, e se desespera por não conseguir pagar todas as contas de casa sozinha, uma vez que sequer possui um emprego.

Nesse início muito potente, fica claro o desespero de Vanda não só por ter sido abandonada, mas por não saber o motivo. Frequentemente os livros sobre rompimentos mostram essa dinâmica da mulher querendo respostas de um lado, e de outro o homem sendo incapaz de explicar por que ele optou pelo término. Sobre essas cartas de Vanda, Aldo mais tarde irá dizer que elas “conservavam os vestígios de uma dor tão forte que, se liberada, poderia atravessar o cômodo, se espalhar pela sala, irromper além das portas fechadas e voltar a se apossar de Vanda”.

No segundo livro que compõe a obra, conhecemos a história contada por Aldo. Foi ele próprio quem contou a Vanda sobre ter ficado com Lidia, uma jovem estudante universitária. Na confissão, ele se justifica com “lamento, aconteceu, reprimir o desejo é mesquinho”. Isso mostra muito da personalidade de Aldo que vai ser mais explorada ao longo das páginas. Para ele, o que ele fez não foi uma traição, e elabora que “a verdadeira traição é quando se trai o próprio instinto, as próprias necessidades, o próprio corpo e a si mesmo”. Tudo isso não poderia sair da boca se não de um pedante inteligentinho que se acha tão importante a ponto de querer traçar uma guerra contra o significado do ato de trair.

Aldo é tão prepotente que pensa que Vanda deve aceitar que isso aconteceu, que ele ficou com uma outra mulher, decidiu ir morar com ela e, talvez quando ele voltar para a família, pode ser que aconteça novamente. Outros personagens de “Laços”, como os amigos de Aldo, também parecem exigir uma postura racional de Vanda, aconselhando Aldo de que não se deve resistir às pulsões, que ele não deveria se sentir culpado e que sua agora ex-esposa deveria encontrar uma forma de sofrer com mais elegância.

Essa insensibilidade de Aldo chega a ser chocante quando ele admite que precisou de muito pouco para decidir sair de casa, sendo que bastou ver o quanto era feliz andando de mãos dadas com Lidia, indo com ela ao cinema e logo em seguida a um restaurante para jantar; quando sobre seus filhos, diz que só de ouvir uma voz infantil na rua chamando por “papai” já sentia seu instinto paterno saciado; e até mesmo com Vanda indo parar no hospital depois de tentar se matar, ele não pensar sequer em visitá-la.

Apesar de se demonstrar racionalista e insensível com o sofrimento da própria mãe de seus filhos, Aldo é um homem extremamente inseguro. Isso fica claro com seus pensamentos de que Lidia logo o deixará quando encontrar um homem melhor que esteja à sua altura; com seu constrangimento em ser visto por ela como um homem mais velho que possui responsabilidades com seus dois filhos; e sua necessidade em sempre falar do seu trabalho, e de como ele é importante.

Seu medo por fim se concretiza, e Lidia resolve por dar um tempo daquela relação. Aldo volta para a família, que o aceita de volta. Mesmo a generosidade da ex-mulher e dos dois filhos não é suficiente para que ele se mantenha fiel a eles, e passa a ter amantes poucos meses após o retorno.

O terceiro e último livro encerra a obra com a história contada pelos filhos, que mesmo após décadas, ainda sofrem as consequências do abandono que sofreram pelo pai durante quatro anos. Sandro agora com quase cinquenta anos engravida toda mulher com a qual ele se envolve; no oposto disso, pouco mais nova que o irmão, Anna, que é a narradora do livro, é uma ressentida que não vê motivos para procriar – na verdade, a depender da personagem, colocar filhos no mundo deveria ser considerado crime hediondo.

A passagem de Anna pela narração é um acontecimento, mostrando o sofrimento que foi viver com sua mãe enfurecida por ser abandonada, despejando sua raiva nos dois filhos. E com o pai que os visitava com uma periodicidade anual, sendo essas visitas não tão menos incômodas – para Anna, era melhor que o pai sequer voltasse para casa.

Esse último livro finaliza a obra com majestade. Anna parece ter sido traumatizada tanto quanto sua mãe Vanda. É explícito seu ressentimento, a sua raiva do mundo, o seu sentimento de vingança com os pais, a inveja que ela sente do irmão, sua crença de que o universo lhe deve algo. O final simboliza um sofrimento que acontece, que vai, mas que volta para quem o causou.

Domenico Starnone é casado com Anita Raja, uma tradutora italiana que supostamente é a escritora por trás do pseudônimo de Elena Ferrante. “Laços” é como uma versão masculina de “Dias de Abandono”, da autora napolitana, mas independente da ligação que a obra possui com o livro de Ferrante, ela basta por si só e se coloca como uma literatura de altíssimo nível.

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