Vitória da democracia contra a banalidade do mal

Mesmo com a vitória de Lula, assusta pensar que, apesar de tudo, Bolsonaro quase chegou lá


Já no primeiro turno das eleições presidenciais de 2022 fiquei surpreso com a resiliência de Bolsonaro que conseguiu avançar para o segundo turno muito próximo de Lula e com possibilidade de vencê-lo. Esse choque se repetiu no último dia 30 de outubro quando Bolsonaro conseguiu reduzir muito a vantagem de votos de Lula e quase saiu reeleito.

Apesar da negligência na pandemia, da inflação que joga o preço da cesta básica no teto, da redução do salário mínimo, do sigilo bancário, do orçamento secreto, do envolvimento com a milícia, das rachadinhas, e de todas as barbaridades ditas diariamente, como Bolsonaro ainda assim recebeu o apoio de 58 milhões de eleitores? Para tentar entender esse fenômeno, é interessante recorrer a filosofia de Hannah Arendt.

Alemã de origem judaica, Hannah Arendt fugiu para os EUA diante do avanço do antissemitismo na Alemanha Nazista. Passada a segunda guerra mundial, Hannah Arendt é convidada pela New Yorker para cobrir jornalisticamente o julgamento de Adolf Eichmann, um dos organizadores do Holocausto, em Jerusalém.

Hannah Arendt chega a Israel com a expectativa de encontrar um monstro, já que este foi quem cuidou da logística do projeto que matou cerca de cinco milhões de judeus. No entanto, Arendt se deparou com um homem burocrático, superficial, cumpridor de ordens e repetidor de frases clichês. Eichmann sequer sabia a dimensão dos crimes que cometeu, e, na verdade, ele nem acreditava ter cometido algum delito. Ele sempre dizia que seguia o certo, seguia o governo e as leis do estado, por isso acreditava em sua inocência.

Então o mal praticado por Adolf Eichmann não era um mal demoníaco, e sim um mal rotineiro, constante, que fazia parte do dia a dia dos alemães. É como uma inversão ética onde o mal era o correto a se fazer, e o bem, o errado. Esse fenômeno foi chamado por Hannah Arendt de “banalidade do mal”, e pode ser encontrado em seu livro “Eichmann em Jerusalém”.

A “banalidade do mal” pode explicar o que aconteceu no Brasil nos últimos anos e que provavelmente deve se seguir ainda por um bom tempo. Faz sentido chamar os eleitores do Bolsonaro de imbecis? Sim, faz. Mas faz sentido chamá-los de racistas, misóginos e homofóbicos? Isso é um pouco mais complicado.

É difícil acreditar que metade do país odeia negros, mulheres e gays, mas essa mesma metade não se chocou em nenhuma das diversas vezes que Bolsonaro atacou essas minorias, nem quando ele disse ter “pintado um clima” com meninas venezuelanas, e nem quando imitou pessoas com COVID-19 morrendo com falta de ar. E sabe por que não se chocaram? Porque todo esse mal se tornou constante, se repetindo diariamente, praticamente se tornou algo banal. O próprio Estado transformou a maldade como algo intrínseco ao seu governo, e os eleitores deitaram sobre ele como o gado deita na grama.

No entanto, a banalidade do mal não tira a responsabilidade de quem o pratica porque o indivíduo tem a liberdade de fazer suas próprias escolhas. Para combater a banalidade do mal é necessário realizar uma reflexão para atingir uma racionalidade profunda que visa o bem coletivo, e não apenas o individual, sendo que para atingi-lo muitas vezes é preciso ir contra seus iguais. Apenas o bem tem profundidade.

Por isso a maldade praticada por Bolsonaro não tem apenas nele o seu único responsável. A culpa também é daqueles que, em sua liberdade de escolha, escolheram apoiar a barbárie. O que alivia é que, pelo menos por agora, esses foram derrotados.

Foto de capa: Pedro Pinho.

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