“Beach Rats” mostra uma agressividade como ferramenta de defesa

Filme de Eliza Hittman acompanha um adolescente se descobrindo sexualmente – e sentindo a angústia dessa experiência


Frankie é um adolescente sem rumo do Brooklyn que luta para escapar de sua vida doméstica desoladora e navega em questões de auto identidade, enquanto equilibra seu tempo entre seus amigos delinquentes, uma nova namorada e homens mais velhos que ele conhece online.

Neste filme de Eliza Hittman, a diretora não quer impressionar seu público com um roteiro mirabolante e inventivo, e sim mostrar para ele a complexidade de um adolescente se descobrindo sexualmente.

O protagonista é um escroto que usa da agressividade não apenas para ser aceito no seu bando de amigos, mas também para esconder a sua vulnerabilidade. Quando conhece Simone, garota que posteriormente virá a ser sua namorada, Frankie a trata de forma indiferente num primeiro momento, e depois até a ridiculariza quando ela tenta transar com ele. Isso tudo é porque ele de fato não gosta dela? Acredito que não. Parece muito mais uma forma de se rebelar contra essa mulher que coloca em cheque a sua virilidade, uma fúria por ter um pau mole entre as pernas, mesmo diante de um corpo feminino nu.

Essa angústia por se sentir incapaz de ter um relacionamento heterossexual é visto novamente quando Frankie presencia a sua irmã mais nova com um namoradinho. O protagonista imediatamente sente um incômodo, e em outro momento irá até expulsar o namorado da irmã da sua casa. A afetividade entre duas pessoas também pode agredir terceiros, e, claro, aquele jovem casal representa o que Frankie gostaria muito de ter, mas não consegue.

Para dar vazão à sua sexualidade, Frankie passa a utilizar sites de conversas para marcar sexo casual com outros homens, sempre mais velhos. No próprio filme o protagonista explica um pouco da sua preferência, diz que os homens mais velhos não fazem parte do seu círculo social, o que lhe dá maior segurança de não ser descoberto. Porém, de um ponto de vista psicanalítico, esse gosto pelos homens mais velhos talvez tenha relação com seu pai, que há bastante tempo se mostra ausente do seu papel, devido a um câncer que o corrompe e o deixa inválido.

Uma cena marcante do filme é quando Frankie e Simone estão a uma festa e são atendidos por um bartender que foi amante de Frankie na noite anterior. Esse encontro entre sua vida pública e sua vida privada faz com que o protagonista entre em um surto e queira abandonar o local.

“Beach Rats” talvez seja incompreendido por ter esse roteiro linear, sem grandes reviravoltas. No entanto, isso é o que torna a obra interessante, pois ela mantém a verossimilhança com a vida: complexa onde parece ser muito simples.

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