Marina Sena e a complexa interseccionalidade

Cantora mineira é alvo de quem não reconhece seu talento, nem a realidade de um Brasil longe das capitais

Constantemente Marina Sena é atacada na Internet por aqueles que dizem que ela não tem talento e que sua fama é apenas por ela ser uma “branca” do sudeste. Nem se eu me esforçar muito eu consigo ler Marina Sena como uma mulher branca, e sim como uma mulher miscigenada, parda, como a maioria das pessoas no Brasil. Inclusive, se a afirmação de que mais de 50% dos brasileiros são negros for verdadeira, então precisamos necessariamente considerar como negras as pessoas com o tom de pele e traços de Sena.

Mas mesmo se considerarmos que Marina Sena é branca, chamá-la de privilegiada é negar o talento e o mérito de uma menina que saiu de Taiobeiras, Norte de Minas, para conseguir projeção nacional e ignorar a realidade das pessoas que moram no chamado Brasil profundo. Afinal, quem é mais privilegiado: um negro que nasce em uma grande capital, ou um branco que nasce no interior real?

Antes de entrar em qualquer comparação sobre privilégios entre uma pessoa negra que nasce e vive em uma grande capital e uma pessoa branca que nasce em uma área rural com poucos recursos, é importante entender que o racismo e a desigualdade social são complexos e interconectados. Eles não podem ser avaliados simplesmente com base na localização geográfica ou em fatores socioeconômicos isolados.

A questão racial é um fator determinante na vida de uma pessoa, influenciando desde o acesso a oportunidades educacionais e profissionais até o tratamento em serviços públicos como saúde e segurança. Um negro sofre com a discriminação racial e enfrenta obstáculos adicionais para alcançar o mesmo nível de acesso a serviços e oportunidades do que um branco, enfrentando um maior risco de violência policial e discriminação em espaços públicos, tornando sua vida cotidiana mais difícil e perigosa.

Mas uma pessoa negra que vive em uma grande capital tem mais oportunidades de acesso à educação de qualidade e a empregos com salários mais altos em comparação com a pessoa branca que vive em uma área rural. Isso é especialmente importante considerando que a educação e o emprego são fatores cruciais para o bem-estar e a mobilidade social. A pessoa negra que vive em uma grande capital também tem acesso a uma variedade de serviços culturais e de entretenimento, o que pode aumentar sua qualidade de vida.

No cenário cosmopolita de uma capital a exposição a diferentes culturas pode ajudar a expandir a perspectiva e a compreensão de mundo da pessoa, tornando-a mais aberta e tolerante. Por outro lado, no interior existe apenas uma cultura limitada e a ideias estereotipadas.

Uma pessoa branca que vive em uma área rural pode enfrentar dificuldades até em encontrar atendimento médico adequado. Isso é especialmente verdadeiro para pessoas de baixa renda, que podem não ter seguro de saúde ou recursos para pagar por serviços médicos privados. A pessoa negra pode ter acesso a clínicas especializadas em atendimento de saúde voltado para a população negra, o que pode melhorar a qualidade do tratamento e a eficácia do atendimento.

Outro ponto a ser considerado é que a pessoa negra que vive em uma grande capital pode ter acesso a grupos de apoio e a redes de solidariedade que podem ajudá-la a lidar com o racismo e a desigualdade. Essas redes podem ser cruciais para o bem-estar emocional e mental da pessoa, oferecendo suporte emocional e social. Por outro lado, a pessoa branca que vive em uma área rural pode enfrentar o isolamento social e a falta de redes de apoio, o que pode aumentar a sensação de desesperança e desamparo.

Uma pessoa negra que vive em uma grande capital é mais privilegiada do que a pessoa branca que vive no interior do Brasil profundo. Isso ocorre porque a pessoa negra tem mais acesso a oportunidades educacionais e profissionais, serviços de saúde de qualidade, redes de apoio e políticas públicas que visam combater o racismo e a desigualdade social. No entanto, é importante ressaltar que essa comparação não é uma competição entre diferentes grupos de pessoas, mas sim uma análise da complexidade dos problemas sociais, já evidenciada pela teoria da interseccionalidade.

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